Volto pra casa
Na terça
No metrô das duas.
Volto depois de um dia de amor,
Bebidas e selvageria.
Volto, cansado e feliz.
Volto para o meu porto!
Que me espera quentinho
E confortável.
Com um belo bife no prato.
Volto no metrô das duas,
Com chineses do meu lado.
Pego na sacola uma cerveja
E abro.
Bebo e penso no quê eles estão falando.
Para que estão gritando?
Pessoas normais voltam pra casa,
Ou vão para o trabalho...
Nesse dia dos mortos.
Eu,
Só estou esperando o fim.
Da linha.
O fim da cerveja.
E o início da rotina.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
Falta de Palmas
Estava quebrando um galho num evento lá no Centro, lá na querida casa onde vou aprender o meu oficio de investigador, era uma festa de recepção aos calouros e mais uma das festas de integração entre os cursos. Bem, ia rolar um som lá, havia uma possibilidade deu tocar, haveria palco livre depois das bandas. Dei um chega na passagem de som, descobri que havia uma falta de bateristas, parece que o dono da bateria e o batera da banda tinha ido embora sabe-se lá o por quê, o que importava é que eles precisavam de um batera e eu estava ali. E toquei, devo ter tocado bem umas duas horas, não sei, toquei bastante, foi maneiro, foi divertido, me davam cerveja, as pessoas curtiam, se balançavam, conversavam, se pegavam. As pessoas estavam realmente tendo momentos legais por lá. Só que eu notei uma coisa. Uma coisa que eu já vinha achando estranho.
Era um sábado, era aniversário de um motoclube lá por Vila Isabel. Tinha churrasco 0800 (para os de colete e pros caras de pau) e cerveja. Fora isso tinha o som de uma banda, banda de uns coroas gente fina que eu virei a tocar. Fui lá pra prestigiá-los e tal. Isso tudo era lá na sede do motoclube, bem legal, todo preto, cheio de caveiras, fotos de moto, pessoas barbudas, loiras, sinuca, chamas, tabaco, cerveja, a única coisa de pitoresca era a escola de balé na frente da sede... Mas tudo bem, viva a diversidade! E se eles não se importam, quem sou eu para falar algo? Bem, a banda começou a tocar, o repertório deles foi legal, as pessoas realmente curtiram, dava pra ver em suas faces rosadas e empolgadas totalmente embriagadas. Mas havia algo estranho lá, era estranho, de vez enquanto, entre uma música e outra, pra ser mais preciso, acontecia um silêncio. Um silêncio mortal, que remetia morte e desanimo, falta de graça e vergonha. Um silêncio que tomava conta daquela sede do motoclube, mas aquelas pessoas de preto pareciam não se importar, e logo após alguns segundos dessa angustia desconcertante a música recomeçava e ninguém parecia se importar, só tinham que levantar um pouco a voz e nada mais. Ao término do show falei com o baixista:
— Cara, por que eles não batem palmas? — Ele riu e simplesmente disse que não entendia aquele povo.
Pois bem, tive essa revelação lá, naquele dia no IFCS, quando percebi que as pessoas não se importavam com a música. Tanto faz como tanto fosse. Só batia palmas quem realmente estava perto do “palco”, assim como no motoclube, e só realmente bateram palmas algumas vezes, porque na maioria das vezes eles nem ligavam. Não entendo mais essas coisas. Antes quando alguém tocava alguma coisa em algum lugar às pessoas paravam de conversar, batiam palmas e voltavam a se falar. Era como reticências na conversa. Isso me leva a pensar por que isso esta acontecendo?
Levanto duas ideias. Uma é que hoje em dia qualquer um pode tocar qualquer coisa, aumentou o número de músicos (profissionais, amadores, de fins de semana, de carnaval, de acampamentos, recreativos), por isso as pessoas perderam o valor a música tocada ao vivo, parece o rádio, só que mais alto e às vezes com versões piores. Outro ponto é o do músico ao vivo no recinto, a questão dos cantores de churrascaria, e dos músicos de MPB de barzinhos, que estão ali apenas para você pagar mais caro à conta do bar, e para servir de música ambiente. E talvez seja nesse ponto que o problema começou a existir (pois um maior número de músicos de bar implica num aumento do número de músicos, na acessibilidade e facilidade de se aprender música), porque no barzinho as pessoas não vão pra escutar aquele músico, pois se fossem o cara estaria numa casa de show, não num bar. Logo a música no bar é música ambiente, ou seja, na cabeça das pessoas, aquilo que está tocando pode facilmente ser uma rádio, ou a seleção mp3 do bar. Ou seja, a música é ambiente, a conversa está em primeiro plano. O músico só trás a trilha sonora singular para as diversas cenas que acontecem no local onde ele está se apresentando que vai da comédia ao drama passando por memoráveis tragédias de amor. E por isso que as pessoas não batem palmas, porque não há nenhuma norma de etiqueta que mande aplaudir o sistema de som.
Era um sábado, era aniversário de um motoclube lá por Vila Isabel. Tinha churrasco 0800 (para os de colete e pros caras de pau) e cerveja. Fora isso tinha o som de uma banda, banda de uns coroas gente fina que eu virei a tocar. Fui lá pra prestigiá-los e tal. Isso tudo era lá na sede do motoclube, bem legal, todo preto, cheio de caveiras, fotos de moto, pessoas barbudas, loiras, sinuca, chamas, tabaco, cerveja, a única coisa de pitoresca era a escola de balé na frente da sede... Mas tudo bem, viva a diversidade! E se eles não se importam, quem sou eu para falar algo? Bem, a banda começou a tocar, o repertório deles foi legal, as pessoas realmente curtiram, dava pra ver em suas faces rosadas e empolgadas totalmente embriagadas. Mas havia algo estranho lá, era estranho, de vez enquanto, entre uma música e outra, pra ser mais preciso, acontecia um silêncio. Um silêncio mortal, que remetia morte e desanimo, falta de graça e vergonha. Um silêncio que tomava conta daquela sede do motoclube, mas aquelas pessoas de preto pareciam não se importar, e logo após alguns segundos dessa angustia desconcertante a música recomeçava e ninguém parecia se importar, só tinham que levantar um pouco a voz e nada mais. Ao término do show falei com o baixista:
— Cara, por que eles não batem palmas? — Ele riu e simplesmente disse que não entendia aquele povo.
Pois bem, tive essa revelação lá, naquele dia no IFCS, quando percebi que as pessoas não se importavam com a música. Tanto faz como tanto fosse. Só batia palmas quem realmente estava perto do “palco”, assim como no motoclube, e só realmente bateram palmas algumas vezes, porque na maioria das vezes eles nem ligavam. Não entendo mais essas coisas. Antes quando alguém tocava alguma coisa em algum lugar às pessoas paravam de conversar, batiam palmas e voltavam a se falar. Era como reticências na conversa. Isso me leva a pensar por que isso esta acontecendo?
Levanto duas ideias. Uma é que hoje em dia qualquer um pode tocar qualquer coisa, aumentou o número de músicos (profissionais, amadores, de fins de semana, de carnaval, de acampamentos, recreativos), por isso as pessoas perderam o valor a música tocada ao vivo, parece o rádio, só que mais alto e às vezes com versões piores. Outro ponto é o do músico ao vivo no recinto, a questão dos cantores de churrascaria, e dos músicos de MPB de barzinhos, que estão ali apenas para você pagar mais caro à conta do bar, e para servir de música ambiente. E talvez seja nesse ponto que o problema começou a existir (pois um maior número de músicos de bar implica num aumento do número de músicos, na acessibilidade e facilidade de se aprender música), porque no barzinho as pessoas não vão pra escutar aquele músico, pois se fossem o cara estaria numa casa de show, não num bar. Logo a música no bar é música ambiente, ou seja, na cabeça das pessoas, aquilo que está tocando pode facilmente ser uma rádio, ou a seleção mp3 do bar. Ou seja, a música é ambiente, a conversa está em primeiro plano. O músico só trás a trilha sonora singular para as diversas cenas que acontecem no local onde ele está se apresentando que vai da comédia ao drama passando por memoráveis tragédias de amor. E por isso que as pessoas não batem palmas, porque não há nenhuma norma de etiqueta que mande aplaudir o sistema de som.
And They Play the Tarantella
Barulho de mar. Ondas quebrando perto de mim. Calor, muito calor. Caralho, onde eu estou? Abro os olhos vejo o grande saudoso sol abrasando a minha ressaca e a do mar. Dou me conta que estou deitado na areia e que o mar chega até minhas canelas. Devo estar parecendo um filé à milanesa. Permaneço deitado pensando como eu cheguei aqui, na praia, aliás, que praia é está? Passei a mão na cabeça, o cabelo cheio de areia, todo duro, a barba por fazer, os óculos estão como sempre intactos. Tomo coragem e levanto e quase caio, meu terno está todo cheio de areia, minha carteira está toda molhada, meu celular continua vivo, os cigarros estão encharcados, pelo menos o isqueiro ainda está funcionando, meu caderninho de anotações está se desfazendo, cheio de borrões e com páginas grudadas a ponto de rasgarem. Não tinha nada para fumar, nada para beber, nada para ler, e uma ressaca sem sentido, uma alma encharcada e estava cheio de areia e estava na praia, meu deus o que eu fiz ontem? Muitas perguntas e muito prejuízo.
Bem, parecia domingo, não tinha ninguém na praia. Comecei a ganhar a areia. Reparei que havia muito cigarro, muita ponta, muita garrafa de cerveja, vodka, vinho, e sujeira pela areia. Parecia ter havido uma festa, e uma boa festa. Percebi que tinha umas tochas também, talvez tenha rolado um luau muito louco. Parece que eu cai, ou tropecei, não sei estava ainda meio tonto. Percebi que eu cai por causa se uma bigorna. Sim, uma bigorna no meio de uma praia. Fiquei me perguntando que tipos de loucos eram esses que faziam um luau com uma bigorna, não conseguia vir nada a minha mente. Era muito sem sentido para mim. Levantei e resolvi olhar mais pro chão, tomando mais cuidado onde iria pisar. E vi maços de cigarro, ossos de galinha, latinhas de cerveja, garrafas de destilados, alguns pedaços de panos, papel rasgado, sacolas de lixo cheias, pontas de cigarro, algumas saias de havaiana, calcinhas, cuecas, camisinhas, flores, colares de flores, palhetas, copos amassado, uma serra, um martelo, cocos, baquetas quebradas, uns baldes, e um bongô. Peguei o bongô e fui embora. Percebi que eu estava na Praia do Diabo. Peguei ali pelo Arpoador. Parei num quiosque, comprei um maço. Acendi e fui andando até a General Osório pegar o metrô. Quando fui pegar o dinheiro pra pagar o metrô reparei que tinha um flyer dentro da carteira. O flyer mostrava tipo o que parecia ser uma estátua de um anão dourado barbudo fazendo a saudação nazista, ele estava em pé em uma lótus e tinha vários outros seres bizarro ao lado dele, o mais estranho era um saci abraçado ao anão. Realmente tomei um susto ao ver aquela porra, fiquei parado sequelando analisando aquele flyer e quase criando um motim na fila do metrô, eu tinha aberto a carteira pra pegar o dinheiro e eu era o primeiro da fila e a fila começava a ficar grande e furiosa. Depois disso fiquei a volta pra casa inteira olhando curiosamente para aquele anãozinho e o saci, que coisa mais bizarra. Depois percebi que tinha algumas coisas em hebraico. A parte de trás do flyer estava toda borrada, mas tinha como endereço a Praia do Diabo.
Era realmente domingo, e só fui perceber isso à tarde. Foi automático assim que cheguei a casa, apaguei no sofá. Merda. Acabei com o sofá, agora ele ta todo fedendo a bebida, cigarro e cheio de areia. Resolvi tomar um banho e tentar relaxar um pouco, eu parecia mais firme, mas a cabeça ainda martelava. Quando eu tirei a roupa e me deparei com o espelho vi que meu corpo estava todo rabiscado, parece que me pintaram com tinta guaxe, sei lá, que coisa mais bizarra. Tinha um sol no meio da minha barriga, muito bem desenhado, e no resto do corpo, várias sílabas e mãozadas sem sentido. Pouco me importei e tomei banho, custou um pouco tirar aquela guaxe, mais saiu. Agora eu estava limpo, fui à cozinha e fiquei bebendo água.
Tentei me lembrar do que fiz ontem, não consegui. Fiquei encarando o flyer e nada. Tentei achar algo na internet e mais nada. Tentei ver se aquele anão era sobre alguma seita maluca com sacrifícios e santo daime, e não achei nada, porra nenhuma. Pensei seriamente dum complô maligno de neo-nazistas doidões de aiuasca, ou com os cus cheios de outras drogas pesadas, chapadões num luau falando sobre arte contemporânea, rasgando as próprias roupas, se libertando dos padrões da moda, e pintando os corpos celebrando as antigas tradições celtas e batucando sons loucos e ancestrais de noites tão escuras que não podem mais serem vistas. Noites ancestrais de celebrações da carne e do contato do homem primitivo com o complexo ser astral, a junção dos corpos, a união num batuque hipnotizante e delirante de tempos em que o homem era um ser complexo e rico de cultura e significados sobre as coisas do mundo. Um mundo onde deuses andavam pelos homens e não havia essa distinção, todo eram iguais e felizes batucando e celebrando a vida! Eu forcei muito a minha cabeça, mas não pude me lembrar de nada, nem achei nada na internet, a única coisa que eu achei foi o nome do artista plástico alemão que fez o anãozinho dourado... Bem, dane-se, uma amnésia nunca faz mal a ninguém.
No dia seguinte, chegando à redação, o meu chefe perguntou:
— Então, como foi à festa do Anão Dourado?
— Festa do Anão Dourado?
— É, a festa que eu mandei você cobrir que ia acontecer no sábado na casa do... — Puta que paril! NA CADA DO RENATO GOLDENBERG! Tudo na velocidade e com a intensidade de um soco no rim. O ponto de encontro era na casa dele no Arpoador, tinha uma porrada de gente lá, muita gente mesmo, mas tava tudo escuro. Ai ele surgiu na sala cuspindo fogo e tacando confete. Gritando que a festa era tudo uma celebração demoníaca e que deveria ser feito o “ritual” na praia do Diabo! Ele se deparou na janela, com quase metade do corpo para fora, apontando para as tochas que estavam na praia, e gritando que a festa era lá, e ele tacava confete e gritava e todos riam, e ele disse que quem chegasse por último seria a mulher do padre! Nesse momento alguém riu loucamente, com uma risada profunda e de satisfação, será que seria o padre? E numa cortina de fumaça o Renato desapareceu. Todos sabiam que ele era um louco-poeta-ilusionista-pseudo-judeu-anarquista. Então as portas abriram e todos foram correndo para lá. No calçadão reparei nas figuras estranhas que estavam lá. E realmente existia um padre, ele era enorme, e eu não queria ser a mulher dele, e aquele homem olhava para todos com um olhar denso e profundo, parecia estar tendo uma orgia com todos só em olhar as pessoas. Quando todos chegamos lá foram nos dadas cerveja e o Renato deu como iniciada a festa! Então, bongôs começaram a tocar, logo em seguida, atabaques, djembês, congas, alfaias, caixas começaram a fazer o som. O som era realmente hipnotizante. Tinha uma mulher dançando dança do ventre e tocando castanholas, um casal dançando tango, pessoas fazendo malabarismo, pessoas cuspindo fogo, pessoas gritando coisas, pessoas construindo poesia desses gritos, pessoas se pegando, pessoas nuas, pessoas cheias de areia, pessoas bebendo, fumando, conversando, fodendo! Estava tudo desordenado, até que o cara do acordeão chegou. Ele era muito cigano, e pos ordem na festa. E começou a tocar uma tarantela, e todos os instrumentos o seguiram. Foi lindo eles tocavam uma tarantela e todo os cachorros começaram a uivar, nenhuma criança deveria estar acordada naquele momento, e os cubanos massacravam em suas congas, pensava eu donde via aquele vigor, se fosse eu já estaria morto! Era uma loucura todos aqueles instrumentos coordenados e um poeta de voz grave recitando versos dos mais distintos e inquietantes! O fogo, o confete, a comida, o sexo, a música, era a exaltação máxima da carne para um deus pagão. O mais estranho foi o casal que dançava tango em todas as músicas, não paravam, era louco, apaixonante, intenso, violento, sublime humano! Eles dançavam tango até sangrar, naquela areia fofa, celebrando a vida, a carne, o sentimento melancólico, celebrando a nossa vida delirante, a nossa realidade alucinada.
— Então, cê lembrou?
— Não, acho que eu estava me preparando para essa festa, quando eu fiquei muito bêbado em casa vendo algum filme do Woody Allen. — Bem, o público não pode saber de todas as loucuras, fora que eles não iam gostar de saber de uma orgia louca de malucos.
Bem, parecia domingo, não tinha ninguém na praia. Comecei a ganhar a areia. Reparei que havia muito cigarro, muita ponta, muita garrafa de cerveja, vodka, vinho, e sujeira pela areia. Parecia ter havido uma festa, e uma boa festa. Percebi que tinha umas tochas também, talvez tenha rolado um luau muito louco. Parece que eu cai, ou tropecei, não sei estava ainda meio tonto. Percebi que eu cai por causa se uma bigorna. Sim, uma bigorna no meio de uma praia. Fiquei me perguntando que tipos de loucos eram esses que faziam um luau com uma bigorna, não conseguia vir nada a minha mente. Era muito sem sentido para mim. Levantei e resolvi olhar mais pro chão, tomando mais cuidado onde iria pisar. E vi maços de cigarro, ossos de galinha, latinhas de cerveja, garrafas de destilados, alguns pedaços de panos, papel rasgado, sacolas de lixo cheias, pontas de cigarro, algumas saias de havaiana, calcinhas, cuecas, camisinhas, flores, colares de flores, palhetas, copos amassado, uma serra, um martelo, cocos, baquetas quebradas, uns baldes, e um bongô. Peguei o bongô e fui embora. Percebi que eu estava na Praia do Diabo. Peguei ali pelo Arpoador. Parei num quiosque, comprei um maço. Acendi e fui andando até a General Osório pegar o metrô. Quando fui pegar o dinheiro pra pagar o metrô reparei que tinha um flyer dentro da carteira. O flyer mostrava tipo o que parecia ser uma estátua de um anão dourado barbudo fazendo a saudação nazista, ele estava em pé em uma lótus e tinha vários outros seres bizarro ao lado dele, o mais estranho era um saci abraçado ao anão. Realmente tomei um susto ao ver aquela porra, fiquei parado sequelando analisando aquele flyer e quase criando um motim na fila do metrô, eu tinha aberto a carteira pra pegar o dinheiro e eu era o primeiro da fila e a fila começava a ficar grande e furiosa. Depois disso fiquei a volta pra casa inteira olhando curiosamente para aquele anãozinho e o saci, que coisa mais bizarra. Depois percebi que tinha algumas coisas em hebraico. A parte de trás do flyer estava toda borrada, mas tinha como endereço a Praia do Diabo.
Era realmente domingo, e só fui perceber isso à tarde. Foi automático assim que cheguei a casa, apaguei no sofá. Merda. Acabei com o sofá, agora ele ta todo fedendo a bebida, cigarro e cheio de areia. Resolvi tomar um banho e tentar relaxar um pouco, eu parecia mais firme, mas a cabeça ainda martelava. Quando eu tirei a roupa e me deparei com o espelho vi que meu corpo estava todo rabiscado, parece que me pintaram com tinta guaxe, sei lá, que coisa mais bizarra. Tinha um sol no meio da minha barriga, muito bem desenhado, e no resto do corpo, várias sílabas e mãozadas sem sentido. Pouco me importei e tomei banho, custou um pouco tirar aquela guaxe, mais saiu. Agora eu estava limpo, fui à cozinha e fiquei bebendo água.
Tentei me lembrar do que fiz ontem, não consegui. Fiquei encarando o flyer e nada. Tentei achar algo na internet e mais nada. Tentei ver se aquele anão era sobre alguma seita maluca com sacrifícios e santo daime, e não achei nada, porra nenhuma. Pensei seriamente dum complô maligno de neo-nazistas doidões de aiuasca, ou com os cus cheios de outras drogas pesadas, chapadões num luau falando sobre arte contemporânea, rasgando as próprias roupas, se libertando dos padrões da moda, e pintando os corpos celebrando as antigas tradições celtas e batucando sons loucos e ancestrais de noites tão escuras que não podem mais serem vistas. Noites ancestrais de celebrações da carne e do contato do homem primitivo com o complexo ser astral, a junção dos corpos, a união num batuque hipnotizante e delirante de tempos em que o homem era um ser complexo e rico de cultura e significados sobre as coisas do mundo. Um mundo onde deuses andavam pelos homens e não havia essa distinção, todo eram iguais e felizes batucando e celebrando a vida! Eu forcei muito a minha cabeça, mas não pude me lembrar de nada, nem achei nada na internet, a única coisa que eu achei foi o nome do artista plástico alemão que fez o anãozinho dourado... Bem, dane-se, uma amnésia nunca faz mal a ninguém.
No dia seguinte, chegando à redação, o meu chefe perguntou:
— Então, como foi à festa do Anão Dourado?
— Festa do Anão Dourado?
— É, a festa que eu mandei você cobrir que ia acontecer no sábado na casa do... — Puta que paril! NA CADA DO RENATO GOLDENBERG! Tudo na velocidade e com a intensidade de um soco no rim. O ponto de encontro era na casa dele no Arpoador, tinha uma porrada de gente lá, muita gente mesmo, mas tava tudo escuro. Ai ele surgiu na sala cuspindo fogo e tacando confete. Gritando que a festa era tudo uma celebração demoníaca e que deveria ser feito o “ritual” na praia do Diabo! Ele se deparou na janela, com quase metade do corpo para fora, apontando para as tochas que estavam na praia, e gritando que a festa era lá, e ele tacava confete e gritava e todos riam, e ele disse que quem chegasse por último seria a mulher do padre! Nesse momento alguém riu loucamente, com uma risada profunda e de satisfação, será que seria o padre? E numa cortina de fumaça o Renato desapareceu. Todos sabiam que ele era um louco-poeta-ilusionista-pseudo-judeu-anarquista. Então as portas abriram e todos foram correndo para lá. No calçadão reparei nas figuras estranhas que estavam lá. E realmente existia um padre, ele era enorme, e eu não queria ser a mulher dele, e aquele homem olhava para todos com um olhar denso e profundo, parecia estar tendo uma orgia com todos só em olhar as pessoas. Quando todos chegamos lá foram nos dadas cerveja e o Renato deu como iniciada a festa! Então, bongôs começaram a tocar, logo em seguida, atabaques, djembês, congas, alfaias, caixas começaram a fazer o som. O som era realmente hipnotizante. Tinha uma mulher dançando dança do ventre e tocando castanholas, um casal dançando tango, pessoas fazendo malabarismo, pessoas cuspindo fogo, pessoas gritando coisas, pessoas construindo poesia desses gritos, pessoas se pegando, pessoas nuas, pessoas cheias de areia, pessoas bebendo, fumando, conversando, fodendo! Estava tudo desordenado, até que o cara do acordeão chegou. Ele era muito cigano, e pos ordem na festa. E começou a tocar uma tarantela, e todos os instrumentos o seguiram. Foi lindo eles tocavam uma tarantela e todo os cachorros começaram a uivar, nenhuma criança deveria estar acordada naquele momento, e os cubanos massacravam em suas congas, pensava eu donde via aquele vigor, se fosse eu já estaria morto! Era uma loucura todos aqueles instrumentos coordenados e um poeta de voz grave recitando versos dos mais distintos e inquietantes! O fogo, o confete, a comida, o sexo, a música, era a exaltação máxima da carne para um deus pagão. O mais estranho foi o casal que dançava tango em todas as músicas, não paravam, era louco, apaixonante, intenso, violento, sublime humano! Eles dançavam tango até sangrar, naquela areia fofa, celebrando a vida, a carne, o sentimento melancólico, celebrando a nossa vida delirante, a nossa realidade alucinada.
— Então, cê lembrou?
— Não, acho que eu estava me preparando para essa festa, quando eu fiquei muito bêbado em casa vendo algum filme do Woody Allen. — Bem, o público não pode saber de todas as loucuras, fora que eles não iam gostar de saber de uma orgia louca de malucos.
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Músicos De Copa
Tem certas coisas que só aparecem no Brasil em época de Copa, como os pseudo-nacionalistas coloridos, chamativos e barulhentos, que saem do armário a cada quatro anos; mas além deles aparecem os músicos de Copa.
Acho que esse movimento pró-batucada deve acontecer por todo o mundo, porém, como o meu mundo apenas se limita ao Rio de Janeiro, não que ele seja o mais importante (e que todos devam se curvar diante do possível gigante do petróleo), mas é o único que eu conheço bem, pelo menos determinados locais da região metropolitana. Mas a coisa é incrível em todo lugar que você vai tem um infeliz de um batuqueiro.
Não reclamo de batuques, mas sim de batuques fora do ritmo, como os que acontecem nas Copas, com esses músicos de Copa, que esperam quatro anos para tirar o surdão do armário e para espancá-lo feito um animal acéfalo e disrítmico. Pensa bem, o cara tem, pelo menos, uma vez por ano pra treinar o surdão, desfilando embriagado pelos blocos da cidade; ou então toda semana, colando em alguma torcida organizada. Mas não! O cara é preguiçoso! E como todo bom brasileiro, que só veste a camisa do Brasil a cada quatro anos, só é músico nessa festa.
Pena que isso não acontece com esses pseudo-compositores que vemos a cada esquina, tocando de perna cruzada, chapéu legal, voz estranha, e músicas sobre por do sol, eu, você e a cosmologia universal que separa nossos beijos tão pertos e tão longes! Malditos intelectuais...
Acho que esse movimento pró-batucada deve acontecer por todo o mundo, porém, como o meu mundo apenas se limita ao Rio de Janeiro, não que ele seja o mais importante (e que todos devam se curvar diante do possível gigante do petróleo), mas é o único que eu conheço bem, pelo menos determinados locais da região metropolitana. Mas a coisa é incrível em todo lugar que você vai tem um infeliz de um batuqueiro.
Não reclamo de batuques, mas sim de batuques fora do ritmo, como os que acontecem nas Copas, com esses músicos de Copa, que esperam quatro anos para tirar o surdão do armário e para espancá-lo feito um animal acéfalo e disrítmico. Pensa bem, o cara tem, pelo menos, uma vez por ano pra treinar o surdão, desfilando embriagado pelos blocos da cidade; ou então toda semana, colando em alguma torcida organizada. Mas não! O cara é preguiçoso! E como todo bom brasileiro, que só veste a camisa do Brasil a cada quatro anos, só é músico nessa festa.
Pena que isso não acontece com esses pseudo-compositores que vemos a cada esquina, tocando de perna cruzada, chapéu legal, voz estranha, e músicas sobre por do sol, eu, você e a cosmologia universal que separa nossos beijos tão pertos e tão longes! Malditos intelectuais...
Não-Lugar
Uma vez apareceu um velho em algum lugar. Olhou, parou, sentou. E falou com seu tom de voz inigualável:
— Maldito homem animal! Maldito seja esse animal capitalista! Que mesmo tendo, abertamente, se livrado de todos os vícios do passado selvagem e criado tantos outros vícios para a sua intelectualidade não conseguiu se desvencilhar de um! Ah! Esse um... O maldito desejo animal! Pelo qual, fazemos tudo, pelo qual inventamos a diferença! Imagine se todos fossemos iguais, logo, todos seriamos aptos a tudo, poderíamos, todos, cumprir a nossa missão na Terra e seriamos felizes por isso! Porém a realidade não é assim tão utópica... Nem os animais, que primeira vista, são todos iguais o são! Eles têm que se mostrar mais interessantes, mais fortes, mais intimidadores, mais protetores, mais “corretos”, mais ricos!!? Seja uma coroa ou um título de propriedade, esse infeliz será mais feliz que nós! Ele estará mais apto a se reproduzir! Não sei como seria uma sociedade igualitária, não sei como seria a ética dessa sociedade, como funcionariam suas leis em relação às felações, será que seria uma orgia comunitária? Rodízio de casais? Rodízio de camaradas?! Porém esse mundo não existe... Não vai existir, vai contra a nossa humana de lei de livre concorrência liberal... O que importa é essa nossa mágoa, essa nossa tristeza criada por esse mundo opositor... Meu filho TENHA DINHEIRO E TU COMERÁS QUEM QUISERES! Mas com certeza você já percebeu isso, né? Mulheres são que nem passarinhos, vão e vem quando bem entendem, e nem adianta enjaulá-los, pois ninguém quer ver pequenos cantores tristes; nem feri-los, nem nada, apenas deixe um pouco de alpiste na sua sacada, para eles saberem que você é o cara, e pra voltarem mais vezes...
Ele terminou o seu discurso em nenhum lugar, ninguém de lá se quer aplaudiu, nem repudiou, apenas deixou passar, deixou voar as palavras ao vento. E no vento aquela voz grave, melancólica, triste, digna de um poeta foi ecoada para algum lugar longe de lá como cá. E assim o poeta itinerante foi embora, voando como um passarinho, procurando outro não-lugar para se pronunciar.
— Maldito homem animal! Maldito seja esse animal capitalista! Que mesmo tendo, abertamente, se livrado de todos os vícios do passado selvagem e criado tantos outros vícios para a sua intelectualidade não conseguiu se desvencilhar de um! Ah! Esse um... O maldito desejo animal! Pelo qual, fazemos tudo, pelo qual inventamos a diferença! Imagine se todos fossemos iguais, logo, todos seriamos aptos a tudo, poderíamos, todos, cumprir a nossa missão na Terra e seriamos felizes por isso! Porém a realidade não é assim tão utópica... Nem os animais, que primeira vista, são todos iguais o são! Eles têm que se mostrar mais interessantes, mais fortes, mais intimidadores, mais protetores, mais “corretos”, mais ricos!!? Seja uma coroa ou um título de propriedade, esse infeliz será mais feliz que nós! Ele estará mais apto a se reproduzir! Não sei como seria uma sociedade igualitária, não sei como seria a ética dessa sociedade, como funcionariam suas leis em relação às felações, será que seria uma orgia comunitária? Rodízio de casais? Rodízio de camaradas?! Porém esse mundo não existe... Não vai existir, vai contra a nossa humana de lei de livre concorrência liberal... O que importa é essa nossa mágoa, essa nossa tristeza criada por esse mundo opositor... Meu filho TENHA DINHEIRO E TU COMERÁS QUEM QUISERES! Mas com certeza você já percebeu isso, né? Mulheres são que nem passarinhos, vão e vem quando bem entendem, e nem adianta enjaulá-los, pois ninguém quer ver pequenos cantores tristes; nem feri-los, nem nada, apenas deixe um pouco de alpiste na sua sacada, para eles saberem que você é o cara, e pra voltarem mais vezes...
Ele terminou o seu discurso em nenhum lugar, ninguém de lá se quer aplaudiu, nem repudiou, apenas deixou passar, deixou voar as palavras ao vento. E no vento aquela voz grave, melancólica, triste, digna de um poeta foi ecoada para algum lugar longe de lá como cá. E assim o poeta itinerante foi embora, voando como um passarinho, procurando outro não-lugar para se pronunciar.
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Balde De Gelo
Me lembro de uma noite doida, de pessoas loucas, de palavras soltas e da minha voz rouca. Acho que era uma festa. Pessoas alegres falando de música, falando de Brasil, falando da vida, bebendo cerveja e comendo bolo. Tinha uísque também pra quem quisesse, salgadinhos e amendoim também. Um violão, um baixo, uma percussão peruana bastante louca e pessoas aptas a tocar. E foi assim à noite. Tocamos de tudo, literalmente, até porque eu toquei um balde de gelo (acredite, baldes são excelentes instrumentos de percussão, na verdade, são os melhores, pois você pode unir tudo o que você sabe de percussão que dá certo!).
Conversei muito sobre música e cheguei a seguinte conclusão: eu sou um chato. Porque eu não gosto de Legião Urbana, de Cazuza, Los Hermanos e de futebol! Não sei se eu sou realmente desse planeta ou se eu sou realmente um merda! Por não saber apreciar a “verdadeira música brasileira”! E alguém na casa gosta de samba, de Adoniran Barbosa? Alguém curte aquele maracatu, do Estrela Brilhante? Mestre Salustiano? Monarco? Tábua de Esmeraldas?! Tim Maia Racional?! Da Lama ao Caos?!
Eu não entendo por que cultuar Legião? Uma banda, pelo menos para mim, fraca tanto de letra quando de música. Mas que conseguiu transmitir todo aquele sentimento daquela geração perdida, desiludida, sem esperança, todos do partido do coração partido que foi fundado durante a nossa linda década de 1980. Entenda que eu não vou agredir ninguém na rua, ou pedir para parar de tocar esta ou aquela música, eu respeito. Cada um tem o direito de gostar do que quiser e isso nunca poderá ser um fator para descriminar uma pessoa.
Mas uma parada que me irrita mesmo é essa coisa de comparação. Eu odeio comparação, sempre odiei ser comparado, acho que você só pode ser comparado dentro das suas aptidões, como um cd de uma banda só pode ser comparado com um outro album da mesma! Não existe essa parada de o que é melhor Beatles ou Rolling Stones! Ou Led Zeppelin e Black Sabbath? Quem canta mais: Robert Plant ou Freddie Mercury! Miles Davis e Coltrane! Samba ou maracatu! Não existe essa parada de cultura superior! Muito menos cultura inferior! Cultura é cultura e ponto final! É manifestação e tem que ser aceita! Se você não quiser aceitar o funk, pra mim tudo bem, até porque não adianta falar com uma parede.
Você é livre para viver a sua vida, faça o que bem entenderes, como se agora você achou desnecessário ler esse texto, queime-o com o seu cigarro, assim como o autor dele acabou de fazer.
Conversei muito sobre música e cheguei a seguinte conclusão: eu sou um chato. Porque eu não gosto de Legião Urbana, de Cazuza, Los Hermanos e de futebol! Não sei se eu sou realmente desse planeta ou se eu sou realmente um merda! Por não saber apreciar a “verdadeira música brasileira”! E alguém na casa gosta de samba, de Adoniran Barbosa? Alguém curte aquele maracatu, do Estrela Brilhante? Mestre Salustiano? Monarco? Tábua de Esmeraldas?! Tim Maia Racional?! Da Lama ao Caos?!
Eu não entendo por que cultuar Legião? Uma banda, pelo menos para mim, fraca tanto de letra quando de música. Mas que conseguiu transmitir todo aquele sentimento daquela geração perdida, desiludida, sem esperança, todos do partido do coração partido que foi fundado durante a nossa linda década de 1980. Entenda que eu não vou agredir ninguém na rua, ou pedir para parar de tocar esta ou aquela música, eu respeito. Cada um tem o direito de gostar do que quiser e isso nunca poderá ser um fator para descriminar uma pessoa.
Mas uma parada que me irrita mesmo é essa coisa de comparação. Eu odeio comparação, sempre odiei ser comparado, acho que você só pode ser comparado dentro das suas aptidões, como um cd de uma banda só pode ser comparado com um outro album da mesma! Não existe essa parada de o que é melhor Beatles ou Rolling Stones! Ou Led Zeppelin e Black Sabbath? Quem canta mais: Robert Plant ou Freddie Mercury! Miles Davis e Coltrane! Samba ou maracatu! Não existe essa parada de cultura superior! Muito menos cultura inferior! Cultura é cultura e ponto final! É manifestação e tem que ser aceita! Se você não quiser aceitar o funk, pra mim tudo bem, até porque não adianta falar com uma parede.
Você é livre para viver a sua vida, faça o que bem entenderes, como se agora você achou desnecessário ler esse texto, queime-o com o seu cigarro, assim como o autor dele acabou de fazer.
Bugigangas
Augusto era uma pessoa até normal. Conseguia se misturar no meio das pessoas sem chamar atenção, em casa não tinha hábitos muito extravagantes, era um bom amigo, era um ótimo pai, e um marido maravilhoso. Não arrumava briga com ninguém, sabia se portar, raramente blefava, não tirava vantagem da vida, antes de chegar ao limite parava de beber. Em suma, uma pessoa, assim, perfeita!
Mas como todo homem ele tinha os seus mimos, algumas paixões, pequenos atos incorrigíveis que estavam marcados em sua alma. Como todo bom homem que tenta controlar seus demônios, às vezes, às vezes, eles saem pra dar uma voltinha. O seu grande problema eram as “sucatinhas”.
É que ele desde moleque ia andando pelas ruas e esbarrava com algo pequeno, brilhante e sujo. E ele se apaixonava por aquele pequeno objeto e resolvia pegar e guardar! E foi assim a vida inteira, guardando pregos, parafusos, porcas, arruelas, pistões, aros, correias, discos, pedaços de ferro entre outras coisas. O que mexesse com ele, ele guardava.
Quando pequeno sua mãe reclamava, pois enchia a casa de coisas sem menor utilidade, mas ele dizia que era melhor estar prevenido. Seus amigos também reclamavam, estavam todos indo pro Maracanã, ver aquele Fla x Flu, quando ele aparecia com um volante de Fusca e falava que iria para casa, pois poderia quebrar o volante no jogo. Quantas namoradas não agüentaram ser interrompidas por um mísero parafuso no chão do quarto do motel.
A que mais agüentou foi a Dora, porque ela achava aquilo até bonitinho, era o hobby dele, e afinal era a única coisa de errado nele, aquele homem tão atencioso, romântico, prestativo, inteligente, criativo. Era parte de seu ser aquilo! Quantas vezes ela falou pra ele fazer alguma coisa com aquelas coisas, montar alguma coisa, talvez uma obra de arte contemporânea, já que estava na moda fazer arte de sucatas. Mas ele não gostava da ideia, pra ele aquilo era um tesouro, algumas coisas que valiam, que pessoas gostariam de ter, coisas úteis!
Com o tempo, Dora não sabia mais entender o marido, ela achou que o entendia, mas viu que ela mesma só o piorou! Foi incentivando o monstro, ela se sentiu como o Frankenstein, arrependida pela sua criação e um dia ela precisou falar com ele.
— Augusto, acho que devíamos redecorar a casa, o que você acha meu amor?
— Hum... Ta bom, o que você quer mudar?
— Você!
— Como assim? Eu?!
— Não agüento mais viver nesse lar! Você nunca me tratou direito! Nunca quis saber do que eu gostava! Enquanto eu fui alimentando o seu “hobby”! Agora a casa está cheia de coisas inúteis! Você realmente piorou muito, meu amor... Antes você só pegava coisas pequenas, agora você pega motores na rua! E também os compra na internet! Nós vivemos num chiqueiro de graxa!
Augusto parou, tirou os óculos, pousou o jornal em cima de uma pilha de pneus, olhou pra Dora, tomou ar, e disse:
— Tudo bem, meu bem. O que você quer que eu faça?
Dora já exaltada, quase chorando, sabendo da resposta que iria vir. Pegou fôlego e tentou dizer calmamente:
— Ou eu ou essas quinquilharias...
Hoje em dia, Augusto é dono de um ferro-velho e de uma loja de serragem. Seus filhos o visitam uma vez por semana, e nunca viram o seu pai mais feliz na vida.
Mas como todo homem ele tinha os seus mimos, algumas paixões, pequenos atos incorrigíveis que estavam marcados em sua alma. Como todo bom homem que tenta controlar seus demônios, às vezes, às vezes, eles saem pra dar uma voltinha. O seu grande problema eram as “sucatinhas”.
É que ele desde moleque ia andando pelas ruas e esbarrava com algo pequeno, brilhante e sujo. E ele se apaixonava por aquele pequeno objeto e resolvia pegar e guardar! E foi assim a vida inteira, guardando pregos, parafusos, porcas, arruelas, pistões, aros, correias, discos, pedaços de ferro entre outras coisas. O que mexesse com ele, ele guardava.
Quando pequeno sua mãe reclamava, pois enchia a casa de coisas sem menor utilidade, mas ele dizia que era melhor estar prevenido. Seus amigos também reclamavam, estavam todos indo pro Maracanã, ver aquele Fla x Flu, quando ele aparecia com um volante de Fusca e falava que iria para casa, pois poderia quebrar o volante no jogo. Quantas namoradas não agüentaram ser interrompidas por um mísero parafuso no chão do quarto do motel.
A que mais agüentou foi a Dora, porque ela achava aquilo até bonitinho, era o hobby dele, e afinal era a única coisa de errado nele, aquele homem tão atencioso, romântico, prestativo, inteligente, criativo. Era parte de seu ser aquilo! Quantas vezes ela falou pra ele fazer alguma coisa com aquelas coisas, montar alguma coisa, talvez uma obra de arte contemporânea, já que estava na moda fazer arte de sucatas. Mas ele não gostava da ideia, pra ele aquilo era um tesouro, algumas coisas que valiam, que pessoas gostariam de ter, coisas úteis!
Com o tempo, Dora não sabia mais entender o marido, ela achou que o entendia, mas viu que ela mesma só o piorou! Foi incentivando o monstro, ela se sentiu como o Frankenstein, arrependida pela sua criação e um dia ela precisou falar com ele.
— Augusto, acho que devíamos redecorar a casa, o que você acha meu amor?
— Hum... Ta bom, o que você quer mudar?
— Você!
— Como assim? Eu?!
— Não agüento mais viver nesse lar! Você nunca me tratou direito! Nunca quis saber do que eu gostava! Enquanto eu fui alimentando o seu “hobby”! Agora a casa está cheia de coisas inúteis! Você realmente piorou muito, meu amor... Antes você só pegava coisas pequenas, agora você pega motores na rua! E também os compra na internet! Nós vivemos num chiqueiro de graxa!
Augusto parou, tirou os óculos, pousou o jornal em cima de uma pilha de pneus, olhou pra Dora, tomou ar, e disse:
— Tudo bem, meu bem. O que você quer que eu faça?
Dora já exaltada, quase chorando, sabendo da resposta que iria vir. Pegou fôlego e tentou dizer calmamente:
— Ou eu ou essas quinquilharias...
Hoje em dia, Augusto é dono de um ferro-velho e de uma loja de serragem. Seus filhos o visitam uma vez por semana, e nunca viram o seu pai mais feliz na vida.
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